Raciocínio, intuição e pureza de pensamentos

Nota introdutória

Neste ensaio, todos os trechos em destaque foram extraídos da obra Na Luz da Verdade, a Mensagem do Graal de Abdruschin, publicada pela Ordem do Graal na Terra. Sempre que a palavra “dissertação” é mencionada, o autor está se referindo à Mensagem do Graal. Quando a dissertação não é mencionada no texto, o respectivo título aparece entre parênteses, ao final do trecho destacado.

Raciocínio, intuição e pureza de pensamentos

Na dissertação “Despertai!” aparece pela primeira vez uma conclamação referente ao foco dos pensamentos:

“Conservai puro o foco dos vossos pensamentos, com isso estabelecereis a paz e sereis felizes!”

Essa exortação aparece de modo recorrente na Mensagem do Graal, cinco vezes para ser mais preciso, o que mostra a importância de que se reveste o conceito para o espírito humano na Terra e a humanidade em geral.

O foco a que Abdruschin se refere aí não é o ponto para o qual “focamos” nossos pensamentos, para o qual o direcionamos, quer se trate de pessoas, objetos ou ideias abstratas. Não. O foco diz respeito ao nosso coração, nosso âmago mais profundo, nossa vontade mais íntima, a qual concorre para a formação e a lapidação dos pensamentos.

O foco é onde os pensamentos são moldados, modelados, fabricados, o ponto central que lhes dá origem. E este foco ou fulcro é a vontade intuitiva do nosso espírito, do nosso “eu”. Se essa vontade for mantida sempre pura, os pensamentos dela oriundos também o serão, como consequência lógica e natural. Se não for, os pensamentos daí decorrentes serão impuros.

Um pensamento impuro não precisa ser necessariamente muito baixo e trevoso, como são, por exemplo, os decorrentes de sentimentos de ódio, de cobiça ou de inveja. Um persistente pensamento de inconformismo ou de revolta, por exemplo, já não pode ser chamado de puro. Pensamentos contínuos de rejeição a uma atitude qualquer de um nosso semelhante também não são puros. Embora esses pensamentos não gerem as horrendas formas de ódio, ciúmes e coisas semelhantes, eles são, sim, impuros, e oprimem não somente a pessoa por eles visada como também seu gerador. Logo no início da primeira dissertação da Mensagem do Graal – “Que procurais?” – Abdruschin diz: “o que cansa o espírito nunca é o certo”. Esses pensamentos cansam fortemente o espírito!

Ao longo de sua obra, Abdruschin insiste na necessidade de conservarmos puro esse foco modelador dos pensamentos. A chave para a libertação de todas as dores, bem como a base para uma permanente ascensão espiritual está ancorada nesta simples frase: “Conservai puro o foco de vossos pensamentos, com isso estabelecereis a paz e sereis felizes!”

Pouco antes de ela surgir pela primeira vez na Mensagem do Graal, já transparecia a explicação do que é propriamente o “foco dos pensamentos”, nessa mesma dissertação “Despertai!”:

“O primeiro passo para tudo tem de partir de vós, portanto. E ele não é difícil, reside apenas no querer que se manifesta pelos pensamentos.”

Este querer que se manifesta através dos pensamentos é a vontade interior, intuitiva, o foco gerador dos pensamentos. Quem não conserva límpida essa vontade intuitiva, o seu coração, dá ensejo a pensamentos maus, impuros, mesmo involuntariamente. Esses pensamentos roubam a paz de alma e impedem a ascensão espiritual. De nada adianta se em tal situação a pessoa reconhece que não deve ter maus pensamentos e se esforça, com todo o empenho de seu raciocínio, em conseguir essa pureza faltante nos pensamentos que emite e sob os quais vive. É uma luta vã, porque o foco dos seus pensamentos não foi mantido puro. A força do raciocínio não pode conservar puro o ponto focal dos pensamentos, pelo contrário. O predomínio do raciocínio em relação à intuição espiritual faz com que os pensamentos gerados fiquem muito longe de qualquer vislumbre de pureza.

Vamos nos aprofundar neste ponto, porque toda a desgraça humana originou-se daí.

O predomínio do raciocínio é muito, muito, mas muito mais perigoso do que pode parecer à primeira vista. O raciocínio oblitera a visão espiritual, bloqueia a voz da intuição, obscurece o livre-arbítrio, enfraquece a confiança no Criador, leva a criatura humana a tomar decisões erradas e não a deixa reconhecer uma determinada situação em sua real amplitude e gravidade.

“Vós, seres humanos, não conheceis, absolutamente, o perigo em que vos encontrais, e quando agora tiverdes de reconhecê-lo, para muitos já será tarde demais, pois não possuem mais a força para despertar desse enfraquecimento, que tão horríveis desgraças tem causado.

Por essa razão, em todos os males da humanidade, tenho de voltar sempre de novo às suas causas reais: o domínio do raciocínio e a indolência do espírito a isso ligada, que surgiu como consequência imediata.”

(Fiéis por hábito)

Sem se aperceber do perigo que corre, a pessoa que se submete aos ditames de seu raciocínio acaba por afundar espiritualmente, também sem se dar conta, porque sua compreensão se restringe em igual medida. Ela continua com a mais plena convicção de estar absolutamente certa em seus juízos, sem perceber a restrição cada vez mais acentuada de seu pensar.

“É facilmente compreensível que a atividade do raciocínio encerra também um querer saber melhor, a obstinada persistência em tudo o que tal atividade considera certo, pois a pessoa com isso ‘pensou’ o que era capaz de pensar. Atingiu seu limite supremo no pensar.

Que esse limite seja baixo, devido ao fato de o cérebro anterior estar preso à Terra, e que, por isso, o ser humano não pode ir além com o raciocínio, ele não consegue saber, e por esse motivo sempre pensará e afirmará haver atingido o certo com seu limite. Se alguma vez ouvir algo diferente, colocará então sempre em lugar mais elevado aquilo por ele pensado, considerando-o certo. Essa é a característica de cada raciocínio e, com isso, de cada criatura humana de raciocínio.”

(A ferramenta torcida)

 

“O erro se encontra exclusivamente no próprio ser humano e no fato de ter transmitido o domínio ao raciocínio, escravizando-se assim pouco a pouco também a si próprio, portanto, atando-se à Terra. Com isso perdeu-se para ele completamente a verdadeira finalidade da existência terrena, a possibilidade de reconhecimento espiritual e de amadurecimento espiritual.

Simplesmente não compreende mais, porque os canais lhe estão bloqueados. O espírito se encontra no corpo terreno como que num saco, que em cima está amarrado pelo raciocínio. Assim o espírito nada mais pode ver, nada mais pode ouvir, fica dessa forma cortado qualquer caminho para dentro, em direção a ele, bem como para fora.”

(Fiéis por hábito)

Este saco em que o espírito está amarrado por cima o impede de estabelecer ligação com a pátria espiritual e de desenvolver-se rumo à perfeição. Impede também, como consequência natural, o reconhecimento do Criador e de Suas leis perfeitas. Ele, o raciocínio, cuida para que tudo permaneça exatamente como está, fazendo uso de todas as armas a seu alcance.

“E com essa vossa falha tornais impossível também que vosso espírito possa soltar-se, para poder se desenvolver gradualmente e receber ligação com aquela espécie que lhe é própria, com o plano espiritual na irradiação de Luz da graça divina.

O domínio do raciocínio jamais permitiu isso, pois dessa maneira a sua glória artificialmente levantada e falsa ter-se-ia rapidamente derretido como um boneco de neve sob o raio do sol. Ele teria descido inexoravelmente do trono e precisaria servir novamente, ao invés de arvorar-se em senhor.

Eis a razão da resistência redobrada, que nem mesmo temeu o assassínio, onde seu prestígio de alguma forma pôde correr perigo. —”

(Os planos espírito-primordiais IV)

O “assassínio” mencionado aí deve ser entendido em sentido amplo. Abrange não somente assassinatos propriamente, cometidos contra os anunciadores e profetas dos tempos antigos, mas também os assassínios morais do tempo presente, em que se lança lodo sobre a reputação de alguém. Do ponto de vista das leis naturais, a difamação não difere do assassinato físico.

Nesta dissertação “Os planos espírito-primordiais IV”, Abdruschin compara o raciocínio a um animal que é cuidado com toda a atenção e que, quando cresce, acaba se tornando uma fera indomável, investindo contra o próprio tratador.

Todos nós, sem exceção, somos hoje esses tratadores, e por isso corremos um imenso risco, que nem podemos avaliar, ao termos de lidar cotidianamente com o animal-fera que mora dentro de nós, que cresceu desmesuradamente, robustecendo-se com sempre novos cuidados zelosos.

“Em nenhuma parte a humanidade se acha segura contra ele, pois em todo lugar ele espreita como perigo, pronto a usar as suas garras afiadas, ou os seus dentes destruidores, onde uma criatura humana não se mostre disposta a sujeitar-se a ele.

É assim que a situação se apresenta hoje na Terra! O animal, que primeiro foi tratado afetuosamente, e que cresceu adquirindo uma força colossal, nenhum ser humano pode mais forçá-lo a um serviço útil. E assim comete tristes devastações, nas quais já vos encontrais em parte, e que ainda se alastrarão de modo pior, porque sois incapazes de dominar tal animal.

(…)

Assim acontece que nem mesmo hoje podeis pensar diferentemente, e tudo quanto ouvis e que vos é anunciado comprimis nas formas terrenas por vós já bem conhecidas, fazendo surgir concepções que nem de longe correspondem à realidade, pois o animal se encontra sobre vós, mantendo-vos subjugados, animal esse que criastes e cuidastes, sem torná-lo submisso a vós!”

(Os planos espírito-primordiais IV)

Em nenhuma parte a humanidade se acha segura… Em todo lugar ele espreita como perigo… Somos incapazes de dominar tal animal… Nem mesmo hoje podemos pensar diferentemente… Tudo quanto ouvimos e nos é anunciado comprimimos nas formas terrenas…

Estas frases mostram que, na época presente, tudo está submetido irrestritamente ao domínio do raciocínio. Elas indicam o imenso perigo a que todos nós, sem exceção, estamos expostos. Mesmo para quem conhece como se dá o atual processo de depuração mundial — o Juízo Final — o perigo permanece. Nesse processo, tudo quanto ainda dorme na alma humana, e do qual o respectivo espírito talvez nem tenha conhecimento, é despertado e fortalecido, sejam coisas boas ou más, virtudes ou defeitos. Tudo ganha vida e vem à tona.

Ocorre que, quando uma falha qualquer surge e se evidencia de alguma maneira, o raciocínio logo trata de menosprezá-la, de atenuá-la, oferecendo múltiplos argumentos tranquilizadores. Uma pequena manifestação de vaidade, uma pontinha de inveja que surge, uma mínima cobiça que aflora, é prontamente apresentada pelo raciocínio ao enclausurado e indolente espírito como algo sem nenhuma importância. Ao passo que, se o espírito estivesse firme no comando de toda a existência, essas exteriorizações de coisas más seriam prontamente percebidas como tais pela intuição, de modo bem doloroso até, o que levaria a pessoa a querer se ver livre delas o mais rápido possível, esforçando-se nisso com todo o empenho. Por isso, sirva de advertência a todos nós que sentimentos ruins percebidos em nosso íntimo, mesmo que aparentem não ter maior relevância, devem ser combatidos sem trégua, para que possamos estar novamente com a nossa alma — a vestimenta do espírito — completamente limpa.

Isso diz respeito ao íntimo de cada um, mas basta olharmos em volta para também reconhecermos, nas grandes e pequenas devastações, os demais frutos do predomínio do raciocínio. Se o animal-raciocínio tivesse sido treinado para uma atividade útil aqui na matéria, o mundo seria completamente outro.

“A força, que o animal gasta agora para as devastações, ele devia utilizar proveitosamente, sob a compreensiva condução de vosso espírito, para o embelezamento e soerguimento de vós próprios e do vosso ambiente, para a paz e a alegria de todos.

Ao invés de devastações estender-se-iam jardins floridos perante vós, convidando para a atividade bem-aventurada, através do trabalho cheio de gratidão de pacíficos cidadãos terrenos.

(Os planos espírito-primordiais IV)

No futuro, após a grande depuração atualmente em curso, quando esse animalraciocínio tiver sido domado à força, a paz e alegria de todos será garantida pelo modo de atuar de cada criatura subsistente em relação ao seu semelhante, sempre construtivo e beneficiador.

Contudo, até chegarmos a esse ponto, em que o raciocínio só puder atuar de maneira útil, teremos de experimentar a amarga reciprocidade de tudo quanto já permitimos que, através dele, pudesse surgir e fosse semeado em nossa atual vida e também nas pregressas.

“Mas antes tendes de vivenciar ainda quanta desgraça causastes com isso, tendes de ver e sofrer as graves consequências que ela traz consigo e que acarreta, a fim de por meio disso ficardes completamente curados de tais atuações e aspirações errôneas, e a fim de que no futuro não possa ressuscitar em vós nenhum desejo nesse sentido!”

(Os planos espírito-primordiais IV)

Por isso, devemos ter sempre conosco que hoje tudo é efeito retroativo. Não existem injustiças de nenhuma espécie. Não há, por exemplo, nenhuma razão para se guardar mágoas de qualquer tipo, já que também neste caso estamos provavelmente colhendo o que nós mesmos plantamos anteriormente. Mágoas e ressentimentos são cultivados por quem se vê como vítima inocente de alguma injustiça, e isso, na quase totalidade dos casos, simplesmente não existe em nosso tempo, que é de colheita incondicional do que foi previamente semeado.

Sempre colhemos o que plantamos, mais cedo ou mais tarde. A semeadura pode até ter ocorrido numa vida anterior, mas a colheita do que foi semeado sempre nos alcançará. E ela é compulsória. A forma exterior de como se dá esse resgate é o que menos importa. Importante é reconhecer que, se somos atingidos nos dias que correm por algo especialmente desagradável e doloroso, então é porque semeamos antes algo igualmente ruim, de mesmíssima espécie. Provavelmente também fizemos outras pessoas sofrerem, seja por incompreensão, desconsideração, orgulho ferido, egoísmo, ou qualquer outra coisa. Semeamos e colhemos. Sempre e sempre. Não há hipótese de colheita sem uma semeadura anterior de mesma espécie, nem tampouco de uma semeadura sem a inevitável safra compulsória futura.

O atual processo de purificação universal acelera tudo ao máximo, inclusive dentro da criatura humana, sejam qualidades ou defeitos, para que ela possa reconhecer ambos ainda em tempo e livrar-se rapidamente dos últimos de uma vez por todas.

Mas, se a pessoa submetida por inteiro ao raciocínio não acordar a tempo, se não reconhecer os golpes da reciprocidade que a atingem como justos e, sobretudo, como graves alertas para que estanque no perigoso caminho que está a trilhar, e volte a seguir pela senda da ascensão espiritual, então ela prosseguirá cegamente em sua queda vertiginosa, sem disso se dar conta, vendo apenas defeitos e erros em tudo e em todos, sem se dar conta de sua real situação.

O indivíduo subjugado pelo seu raciocínio, mesmo esforçando-se em cultivar alguma boa vontade, passa pela vida usando óculos cor-de-rosa em relação aos seus atos e um microscópio de precisão para enxergar os atos alheios.

O leitor sempre deixe falar seu coração quando pretender formar algum juízo sobre o comportamento de seu semelhante. O coração sente claramente o que vai no íntimo do próximo, percebendo sua índole verdadeira, ao passo que as ponderações do intelecto se restringem meramente ao que os sentidos corpóreos conseguem registrar, e mesmo isso ainda é comprimido e deformado, não podendo nunca espelhar a realidade.

De fato, quem se deixa ludibriar pelas aparências exteriores é somente o raciocínio humano, o intelecto. E, via de regra, ainda costuma se encantar com as máscaras e dissimulações a ele apresentadas, com a ajuda sempre disponível de sua dileta filha: a fantasia.

As ponderações intelectivas só conseguem formar pouco a pouco uma imagem do interlocutor, e com base unicamente no que este procura aparentar. Normalmente, tal imagem fica muito longe da realidade. É obscura e borrada.

A intuição espiritual, ao contrário, nunca se engana, reconhecendo de imediato a verdadeira índole do outro. A intuição assimila instantaneamente a verdadeira vontade interior do indivíduo à nossa frente e a avalia com clareza e isenção. A imagem que dele surge é nítida, clara, real e sem retoques. Por isso, a primeira impressão num encontro qualquer é sempre a certa, desde que seja de fato a intuição quem fala, e não o sentimento gerado pelos pensamentos.

Ninguém, portanto, está isento dos perigos provocados pelo onipresente reinado do raciocínio; não, absolutamente ninguém está imune a essas ameaças. É ele, o raciocínio calculista, que nos envolve cuidadosamente com um vistoso manto de argumentos convincentes, querendo nos fazer crer que justamente um determinado posicionamento que assumimos (que sem sua influência teríamos de reconhecer como errado) é perfeitamente justo e justificável. O raciocínio nos convence facilmente de que a possível falha de conduta inserida naquela situação não se aplica a nós precisamente.

Ao longo da Mensagem do Graal, somos advertidos de diversas maneiras sobre os perigos das insidiosas ponderações e argumentações de nosso raciocínio:

“Deve ter chamado a atenção dos seres humanos que menciono tão frequentemente, como sendo nefasto, o irrestrito domínio do raciocínio e a grande indolência do espírito, mas é necessário, pois ambos os fenômenos estão inseparavelmente ligados e devem ser considerados como pontos de partida de muitos males e até como verdadeira causa, hostil à Luz, do retrocesso e queda dos desenvolvidos.

Hostil à Luz porque impede o reconhecimento de todos os acontecimentos e auxílios da Luz, uma vez que o raciocínio preso à Terra, chegando a dominar, corta, como primeira coisa, na reciprocidade, a ligação para a possibilidade do reconhecimento da Luz, atando assim o espírito, que aguarda o desenvolvimento no invólucro de matéria grosseira, com esse invólucro que lhe devia servir.”

(Fiéis por hábito)

Mesmo com advertências tão claras e incisivas, essas palavras são lidas muitas vezes pelos conhecedores da Mensagem do Graal como se não lhes dissessem respeito. Entendemos a exortação, julgamos compreender perfeitamente a gravidade da situação, talvez até nos lembremos de alguém que se encaixe adequadamente nas palavras lidas… menos nós próprios.

E mesmo quando procuramos refletir mais profundamente sobre isso, então julgamos já ter domado e dominado nossa fera intelectiva interior mediante nossa grande boa vontade, passando a seguir estritamente as diretrizes da intuição espiritual. Entretanto, essa “certeza” nos é dada na maior parte das vezes justamente pelo raciocínio, que nos quer fazer crer que já estamos a trilhar o caminho reto e verdadeiro, quando, na realidade, quem está por detrás o tempo todo, no comando de tudo como sempre, é apenas ele mesmo: o raciocínio supercultivado, o tirano tão sagaz, o déspota engendrado pelo nosso cérebro hipertrofiado, que age sempre segundo sua espécie.

E atrás do próprio raciocínio, manobrando-o à sua vontade, usando-o como instrumento de seus interesses, estão as forças tenebrosas, que não querem que o ser humano desperte de seu sono espiritual e tome o caminho da ascensão do espírito.

“Em todos esses fatos aparentemente tão pequenos reconhecer-se-iam as maiores coisas, se o raciocínio somente desse tempo para isso. Mas ele tem o predomínio e luta por isso com toda a astúcia e malícia. Isto é, não ele propriamente, mas na realidade luta aquilo que se utiliza dele como instrumento e que se esconde atrás dele: as trevas!”

(Infantilidade)

É preciso um esforço espiritual intenso e, sobretudo, permanente, para podermos ouvir, nas muitas situações em que nos vemos envolvidos, a real diretriz dada pela nossa intuição, a qual sempre escolherá o caminho reto para cima, o caminho da ascensão espiritual e do bem de tudo e de todos, em sentido amplo. A intuição, quando livre, age assim de maneira natural, sem incutir no espírito qualquer sentimento de vaidade ou prepotência. A vigilância espiritual, que possibilita ouvir a voz da intuição e rejeitar as ponderações do raciocínio em assuntos que não lhe dizem respeito, tem de ser constante, tem de ser exigente e intransigente, tem de se fazer presente no dia a dia, a cada hora, a cada minuto.

Vaidade, prepotência, arrogância espiritual, assim como a sensação de ser um repositório de virtudes e de estar trilhando, como único, o caminho verdadeiro, são ilusões oferecidas pelo raciocínio exclusivamente. Já dizia o escritor inglês Bertrand Russel (1872 – 1970): “Todo homem, onde quer que vá, é envolvido por uma nuvem de convicções reconfortantes que se move com ele como moscas num dia de verão.”

A intuição, como voz interior, enxerga a realidade dos fatos e nos adverte claramente se estamos agindo de maneira errada, enquanto que o raciocínio faz o inverso disso quando consultado sobre coisas que não lhe cabem, ou seja, em assuntos de cunho espiritual. Na verdade, ele só pode dar indicações sobre aquilo de que ele mesmo é constituído, o que sempre estará circunscrito às coisas terrenas, materiais. Ele simplesmente não pode agir de outra forma.

“O domínio do raciocínio exclui completamente o espírito de qualquer possibilidade do seu indispensável desenvolvimento. Esse fato em si não é uma maldade do raciocínio, mas um efeito completamente natural.

Ele age com isso exclusivamente segundo a sua espécie, por não poder de maneira diferente do que fazer desabrochar unicamente a sua espécie e desenvolvê-la à plena força, se ele é unilateralmente cultivado e colocado no lugar errado, ao lhe ser submetida irrestritamente toda a existência terrena.”

(Fiéis por hábito)

Muitas vezes o que julgamos ser nossa “voz interior” não passa de sentimento, o qual também é provocado em última instância pelo raciocínio. Isso acontece porque a intuição quase não consegue mais se fazer valer, visto que o espírito está por demais enfraquecido, tendo deixado atrofiar suas asas espirituais pela inatividade milenar. Agora, ele tem de esforçar-se de novo vigorosamente, precisa movimentar novamente suas enrijecidas asas espirituais, para poder finalmente reiniciar seu abandonado voo às alturas. Só assim, com essa movimentação, suas asas se robustecerão, só assim a sua voz, a intuição, se tornará de novo forte e clara, bem nítida, a ponto de não mais poder ser confundida como o sentimento.

É também o predomínio do raciocínio a fonte primária do orgulho, o qual impede, ou pelo menos dificulta em muito, nossa mudança de opinião diante de circunstâncias que as invalidam. Preferimos quase sempre nos aferrar às nossas convicções, com os olhos e os ouvidos tapados, ao invés de, com o coração aberto, verificar se uma ou mais concepções diferentes da nossa não estariam mais próximas da verdade. A convicção, qualquer que seja, deve ser vista como um diamante bruto, que a despeito de sua beleza e solidez, pode e deve ser continuamente lapidada por novos reconhecimentos, e não permanecer imóvel e intocada, como se já tivesse surgida pronta e acabada. A lapidação não destrói o diamante bruto (a convicção básica), mas sim o torna ainda mais belo e reluzente.

Abdruschin dá um exemplo sobre essa dificuldade patente de se mudar de opinião neste trecho da dissertação “Espiritismo”, ao discorrer sobre a atitude de certos adeptos dessa doutrina:

“São apenas poucos dentre milhões que permitem que se lhes diga a verdade. A maioria deles está emaranhada numa gigantesca trama de pequenos erros, que não lhes deixa encontrar o caminho de saída rumo à verdade singela. Onde se encontra a culpa? Estaria nos do Além? Não! Ou nos médiuns? Também não! Apenas no próprio ser humano individual! Ele não é bastante sincero nem severo consigo mesmo, não quer derrubar opiniões preestabelecidas, teme destruir uma imagem que ele próprio formou a respeito do Além, a qual lhe deu durante muito tempo, em sua fantasia, sagrados calafrios e certo bem-estar.

E ai daquele que nisso tocar! Cada um dos adeptos já está com a pedra pronta para lhe arremessar! Agarra-se firmemente nisso e está disposto a chamar, mais facilmente, os do Além de mentirosos ou de espíritos gracejadores, ou a tachar de insuficientes os médiuns, em vez de primeiramente iniciar um sereno exame de si próprio, refletindo se a sua concepção por acaso não teria sido errônea.”

O orgulho impede frequentemente a natural mudança de opiniões e conceitos, impelindo o indivíduo a acorrentar-se ainda mais firmemente a eles. E se essa teimosia já é particularmente danosa para quem ainda procura reconhecer seus próprios erros e falhas, ela se torna uma verdadeira tragédia para os que estão em busca da Verdade, ou pelo menos dizem estar:

“Mais da metade de todos os que buscam não são sinceros. Trazem em si uma opinião própria já formada. Se tiverem de modificar apenas uma fração dessa opinião, preferem então recusar tudo quanto lhes é novo, mesmo que ali se encontre a Verdade.

Milhares de pessoas têm de afundar por terem atado a liberdade de movimentação com as emaranhadas convicções errôneas, liberdade essa de que necessitam para a salvação através do impulso para cima.”

(Erros)

 

“Aprendei, finalmente, a conhecer direito essa engrenagem; podeis e deveis utilizá-la então para a vossa felicidade!

(…)

Mas exatamente nisso estais como que diante de um muro! Broncos, indiferentes, com uma teimosia que não é explicável. Contudo, finalmente diz respeito, justamente nisso, à vossa vida, a toda vossa existência!”

(Servos de Deus)

Essa teimosia injustificável é um claro sinal de estreiteza de compreensão, consequência também do pecado hereditário, que ao promover a hipertrofia do cérebro anterior acarretou ao mesmo tempo a atrofia do cérebro posterior — a ponte do espírito para a matéria. Com essa ponte danificada, ou mesmo destruída, tornou-se para muitos impossível o reconhecimento da Verdade e dos auxílios à disposição de quem se move direito dentro da Criação.

“Contudo, já é conhecido que justamente a teimosia é apenas um dos mais infalíveis sinais de verdadeira estupidez e estreiteza.”

(Espécies de clarividência)

 

“Agora, finalmente, está no fim de suas forças! Exausto pelas pressões sofridas de forças por ele ainda não reconhecidas, a cujos auxílios obstinadamente se fechou pelo pueril querer saber melhor e também querer poder melhor de seu teimoso comportamento, que se evidencia como consequência do cérebro violentamente atrofiado por ele mesmo.”

(O reconhecimento de Deus)

O Filho do Homem prometido por Jesus, cuja vinda foi prevista em tantas profecias[1], auxiliará apenas aquele que se esforçar sinceramente em livrar-se dessa teimosia tão prejudicial, que se evidencia como um dos mais perniciosos pendores na época presente:

“Ele acolherá somente aqueles que lhe pedirem forças, a fim de se erguerem finalmente para uma contínua melhora; aqueles que se esforçarem, cheios de humildade, para afastar a teimosia até então mantida, e saudarem alegremente a Palavra da Verdade que promana da Luz como salvação! —”

(Uma palavra necessária)

Nossas opiniões são, via de regra, tão perenemente imutáveis, que não nos permitimos sequer nos colocar efetivamente no lugar do outro, para verificar se, por acaso, a nossa concepção num certo assunto não estaria incorreta, ou pelo menos não tão certa.

Se em determinadas situações de opiniões divergentes ou opostas fizéssemos esse exercício com total honestidade, sem pré-condições, sem querer sempre saber tudo melhor, poderíamos angariar uma visão muito mais abrangente da realidade; teríamos muito mais elementos de análise, o que poderia até nos ajudar a modificar ou remodelar uma ou outra concepção, pelo menos em certo grau. E mesmo que elas permanecessem as mesmas, teríamos indubitavelmente uma visão mais flexível em relação ao nosso semelhante de opinião diversa, uma maior compreensão pelo seu posicionamento distinto do nosso e, principalmente, estaríamos resguardados do vicejar de pensamentos e intuições negativas em relação àquela determinada pessoa; o que, no fundo, diz mais a respeito de nós mesmo do que dela própria.

Seguramente, um dos maiores sofrimentos totalmente evitáveis que o ser humano impõe a si mesmo são dores e aflições provenientes de pensamentos. Sofrimentos plenamente evitáveis, sim, porque bastaria a vontade firme de um espírito livre para impedir que se instalassem e se desenvolvessem dentro de nós.

“Atirai para longe de vós aflições oriundas de pensamentos, confiando tão só em vosso espírito, que abrirá para si o caminho certo, caso vós próprios não o amuralhardes.”

(O primeiro passo)

Não é difícil perceber quando estamos dando guarida a maus pensamentos, pois a paz interior desaparece imediatamente, a alegria se esvai como água por entre os dedos e ficamos mergulhados em preocupações e dúvidas. Não precisamos nem devemos nos preocupar com coisas que não podemos ou não tencionamos resolver. Não devemos nos pré-ocupar com elas, pois isso só faz gerar inquietações e aflições. Se não atirarmos logo, para longe, essas aflições, então os maus pensamentos criarão raízes dentro de nós, vicejarão com toda a força e nos darão os frutos correspondentes.

O filósofo grego Epicteto, que viveu no início da era cristã (55 – 135), acreditava que a estrada para a felicidade consistia em parar de se preocupar com o que está além da nossa vontade, da nossa capacidade. E se havia alguém naquela época com motivos para se preocupar era ele mesmo, que passou a maior parte da vida na condição de escravo de um cruel secretário do não menos cruel imperador romano Nero. Não obstante sua difícil situação, Epicteto dedicou a vida em busca de resposta a duas questões que lhe pareciam básicas: “Como viver uma vida plena e feliz? Como ser uma pessoa com boas qualidades morais?” E acabou chegando à conclusão de que uma vida feliz e uma vida virtuosa eram, na verdade, sinônimos; que a felicidade e a realização pessoal eram consequências naturais de atitudes corretas.

De fato, é sempre a própria criatura humana que afasta de si todo vislumbre de alegria e qualquer resquício de felicidade. Uma situação que, vista de cima, mostra na melhor das hipóteses um espírito imaturo, incapaz de aproveitar as muitas dádivas colocadas à sua disposição. Um espírito que, com seu modo de ser, demonstra alimentar dúvidas em relação à Justiça do Todo-Poderoso, e que, portanto, não consegue mais expressar a Ele, com a alma preenchida de alegria e felicidade, a mais pura gratidão pela dádiva de poder existir.

“Ser feliz no mais verdadeiro sentido é, sim, o maior agradecimento que podeis dar a Deus.”

(O circular das irradiações)

O leitor que já se convenceu da importância de viver segundo os preceitos da Mensagem do Graal, esforçando-se nisso com sinceridade, deve fazer uma pergunta a si mesmo e respondê-la com toda a sinceridade: “Sou hoje feliz no mais verdadeiro sentido?”

Com toda a sinceridade… A palavra “sinceridade” vem do latim sine cera, ou seja, “sem cera”, porque a cera era usada outrora na fabricação de máscaras para bailes a fantasia e outros festejos. Assim, uma pessoa “sine cera” era alguém sem máscara. Devo então fazer essa pergunta a mim mesmo despido de qualquer máscara que a minha fantasia procure criar.

Se minha resposta for negativa, então é porque ainda não trago dentro de mim a legítima gratidão para com meu Criador, porque felicidade e alegria são o modo como a legítima gratidão se manifesta espontaneamente. E se não trago no coração essa profunda e permanente gratidão, então é porque ainda não reconheci como deveria o funcionamento das leis que governam a obra da Criação, e também não inseri toda minha maneira de ser e atuar dentro delas. E se assim não fiz, é porque meu esforço espiritual ficou aquém do necessário e não foi capaz de sobrepujar os ditames do meu raciocínio. Seguramente, não procurei estudar a Mensagem do Graal com a seriedade e esforço de aprofundamento que ela requer. Portanto, fui indolente espiritualmente, apesar de o meu raciocínio sempre tentar me convencer do contrário. Este é o diagnóstico verdadeiro.

“O estudo de minhas dissertações, porém, condiciona de antemão um esforço próprio, uma concentração enérgica de todos os sentidos, e com isso uma vivacidade espiritual e vigilância integral!então se consegue aprofundar em minhas palavras, compreendendo-as também realmente.

E isso é desejado assim! Recuso cada indolente espiritual.”

(Pode a velhice constituir um obstáculo para a ascensão espiritual?)

Estudos de psicologia experimental demonstram que quanto mais uma pessoa se esforça em se livrar de um sentimento dolorido, causador de pensamentos incômodos, tanto mais esse sentimento se mostra presente. Isso acontece porque, via de regra, o indivíduo tenta libertar-se de seus próprios maus pensamentos apenas com esforço mental, com o raciocínio, portanto. Quanto mais ele pensa: “Tenho de me livrar deste pensamento!”, tanto mais o dito pensamento se robustece, porque ele está justamente dando uma atenção toda especial àquele assunto que tanto o incomoda. Está exatamente dando força para aquele pensamento específico, que fatalmente atrairá outros de igual espécie, e talvez até acabe se conectando a uma central de pensamentos análogos, fazendo com que o gerador se enrede cada vez mais.

Essa situação é especialmente acentuada quando a respectiva pessoa se sente vítima de alguma injustiça. Mesmo quando ela tenta mudar a sintonia de sua vontade interior, visto que pensamentos negativos também esgotam o gerador, não é algo tão fácil como girar o dial de um rádio. O dial da vontade interior fica cada vez mais duro e emperrado à medida que os maus pensamentos se sucedem. A psicóloga experimental, Dra. Cordelia Fine, comenta com propriedade: “É estranho mas verdadeiro que, quanto mais arduamente tentamos relaxar e esquecer nossas angústias, quanto mais determinados somos em nos alegrarmos e esquecer nossos problemas, ou quanto mais intensamente tentamos nos desligar e ir dormir, mais os pensamentos de estresse, tristeza ou insônia martelam a nossa consciência. (…) Um pensamento perturbador é um adversário extremamente duro. (…) Ao tentar controlar nossos pensamentos, acabamos plantando justamente as sementes de nosso próprio desassossego.”

Mais uma vez, a chave para obtenção do sucesso reside na perseverança. Não na perseverança de tentar conseguir, a todo custo, bons pensamentos, porque isso é uma tentativa meramente racional que só fortalecerá os pensamentos importunos, mas sim na perseverança de querer sempre apenas o bem em tudo, um impulso ilimitado para o bem, constituindo este o foco principal da mais íntima vontade intuitiva.

Quando você se pegar cismando sobre algo que oprime, gerando por isso pensamentos não puros, lembre-se dessa frase da Mensagem do Graal: “O que cansa o espírito nunca é o certo.”

Essa frase vale para muitas coisas e também para pensamentos opressores provenientes de uma vontade tornada má, mesmo que por curto período. Uma frase assim, tão simples, é capaz de um auxílio inimaginável, verdadeiramente eficaz, no tempo presente. Se nos deixarmos levar por algum pensamento que oprime o espírito, então isso não é certo. Simples. A simplicidade do ensinamento dificulta perceber seu real valor. Se nossos pensamentos e intuições não cansarem o espírito, não o oprimirem, então a vontade que lhes deu origem é boa e está tudo certo.

“A má vontade comprime o espírito para baixo, tornando-o pesado, mas o que é bom o impele para cima.”

(Ascensão)

O que cansa o espírito nunca é o certo… A má vontade comprime o espírito para baixo… Sentenças simples, verdadeiras, que podem tornar-se a chave para o reconhecimento de muitos caminhos errados que a pessoa trilha sem perceber, desde que ela tenha consigo a necessária humildade para obter tal discernimento. Ao longo da Mensagem do Graal, Abdruschin insiste sobre o valor da simplicidade, e até se refere diretamente a essa contingência:

“Pensai na Palavra da minha Mensagem, que vos diz que toda a verdadeira grandeza só pode residir na simplicidade, já que a verdadeira grandeza é simples.”

(O primeiro passo)

A base do verdadeiro saber reside exclusivamente na simplicidade. O ser humano que procura desenvolver-se espiritualmente pode e deve seguir adiante no conhecimento das leis da Criação e no reconhecimento de sua atuação, pois parar significa estagnação e retrocesso. No entanto, se essa base simples não estiver muito bem sedimentada nele, se não tiver sido assimilada em seu íntimo e se não seguir junto com ele em tudo, então não irá muito longe em suas tentativas de ampliação do saber, que em tal caso não é nenhum real saber, mas apenas um “querer-saber-melhor” gerado pelo raciocínio. Terá de voltar até o ponto em que ainda havia compreendido de modo simples o que lhe fora apresentado, e retomar, mais uma vez, o caminho da ascensão e do reconhecimento espiritual do qual se desviou.

O emprego de todas as nossas forças em obter pureza no pensar é tanto mais premente agora, na época atual, porque, conforme dito, estamos vivendo a última fase de um processo de depuração universal, conhecido como Juízo Final. Daí a necessidade inadiável de nos desprendermos de todo e qualquer pensamento baixo.

“Por esta razão cada hora da existência terrena se torna mais preciosa do que nunca. Que todo aquele que quer procurar e aprender com sinceridade se desprenda com todos os esforços dos pensamentos baixos que o agrilhoam às coisas terrenas. Do contrário correrá o perigo de permanecer aderido à matéria e de com ela se vir arrastado à dissolução total.”

(O Mundo)

Somente a criatura que viver integralmente dentro da vontade de seu Criador poderá subsistir no Juízo e viver no Reino do Milênio que lhe seguirá:

“Somente esse ser humano ainda poderá subsistir no futuro, e toda a criatura que voluntariamente se orientar pela vontade de Deus! Portanto, que vive, pensa e atua segundo essa vontade! Isso, unicamente, oferece a possibilidade de vida no vindouro reino do Milênio!”

(Cismadores)

O que é formado pelas emanações humanas, sejam intuições, pensamentos ou ações, constituem os canais pelos quais correm os efeitos desse processo de depuração do Juízo Final, na mais perfeita e absoluta justiça. Este trecho da dissertação “O Livro da Vida” sintetiza o processo:

“Os golpes de espada do derradeiro dia investem como fortes irradiações de Luz em direção à Criação e fluem através de todos os canais já formados mediante os efeitos automáticos das leis divinas na Criação, e constituídos por todo o intuir, pensar, querer e também atuar dos seres humanos, como pontos de partida.

Por isso os raios julgadores serão dirigidos através desses canais já existentes, com incontestável segurança a todas as almas, produzindo lá seus efeitos de acordo com o estado da respectiva alma, todavia, tão aceleradamente, que toda a sua existência será trazida em poucos meses para o último círculo de remate de toda a atuação de até então, soerguendo essas almas ou derrocando-as, vivificando-as e fortalecendo-as ou destruindo-as, de acordo com o estado real!”

A aplicação de todas as nossas energias para obtenção de pensamentos puros, conforme exorta Abdruschin, não significa, como já dito, que devamos despender um intenso esforço mental em conseguir essa pureza dos pensamentos,. Esforço mental e vontade mental são absolutamente ineficazes para isso. Este não é o caminho, conforme esclarece Abdruschin na dissertação “O primeiro passo”:

“Acautelai-vos de querer obter à força, lutando, essa pureza de pensamento, pois desse modo a comprimireis em determinadas direções, e vossos esforços se transformarão em ilusão, ficando forçada somente artificialmente, e jamais poderia ter o grande efeito que deveria. Vossos esforços tornar-se-iam nocivos em lugar de úteis, por lhes faltar a autenticidade da livre intuição. Isso mais uma vez seria um efeito da vontade do vosso raciocínio, nunca, porém, o trabalho do vosso espírito! Advirto-vos disso!”

Um exemplo da inutilidade de efeitos de bons pensamentos forçados é a falsa “sensação de elevação” daqueles que se julgam fiéis sem o serem, a qual também pode se originar de orações recitadas:

“Essa ‘sensação de elevação’ interior outra coisa não representa em tais casos senão a consequência de uma autossatisfação provocada pela oração ou por bons pensamentos forçados.

(…)

A sensação eufórica desaparecerá logo no trespasse para o mundo de matéria fina, onde se põe em evidência a intuição íntima até aí mal pressentida, enquanto o sentimento até agora produzido de modo predominante apenas por pensamentos se desfaz em nada.”

(Caminhos errados)

O próprio espírito é que tem, portanto, de mudar sua sintonia. A vontade intuitiva que o caracteriza é que deve aspirar pelo que é nobre e puro, unicamente.

Isso não significa que devamos passar o tempo em contemplações, só pensando em assuntos espirituais e negligenciando as incumbências materiais. Não. As atividades terrenas desempenhadas com boa vontade, disciplina e alegria, também decorrem de um espírito purificado, que igualmente se movimenta para cumprir a contento seus encargos terrenos.

O que não se deve fazer é voltar todos os sentidos unicamente aqui para a Terra, considerando úteis e válidos apenas metas e prazeres terrenos. Pois desse modo a alma penderá realmente, com toda a força, para as coisas terrenas, inclinarse-á apenas para elas, escurecendo com isso e tornando-se cada vez mais densa e pesada, impedindo assim a ascensão do espírito após a morte. Alguém já disse que “levamos da vida a vida que a gente leva”, e isso é bem verdade. Daí a necessidade de que o viver altruístico nos seja algo absolutamente natural, assim como a de vivificarmos, também como algo natural em nossas vidas, a regra de ouro de tantas religiões e crenças, também conhecida como lei áurea: “Fazei ao próximo o que gostarias que te fosse feito.” Tendo como objetivo de vida algo elevado, não daremos espaço para a ancoragem de pendores baixos.

“Na Terra, o ser humano tem o dever de colocar como alvo o que para ele seja o mais alto alcançável e de esforçar-se com todas as forças para atingir esse alvo.”

(Seres humanos ideais)

Pendor, realmente, devemos ter apenas em relação ao Altíssimo Criador dos Mundos: um pendor ao contrário, ou seja, em sentido inverso dos usuais, que propendem baixo. Esse “pendor para cima” tem o condão de nos fazer ascender nos mundos do além após deixarmos a Terra. Isso porque, do outro lado, onde conta apenas a intuição espiritual e as consequentes vivências do espírito, sentiremos imenso anseio em satisfazê-lo, isto é, sentiremos necessidade de nos aproximarmos de nosso Criador. E, com isso, estaremos livres do perigo de sermos atraídos para coisas baixas e de pouco valor, para as quais pendores pouco limpos nos teriam fatalmente arrastado pela lei da gravidade espiritual. É justamente para evitar que criemos qualquer tipo de ídolo terreno e respectivo pendor por ele, mesmo inconscientemente, o que inevitavelmente nos faria esquecer o Todo-Poderoso e nos afastar Dele, que o primeiro e mais sagrado dos dez mandamentos nos adverte incisivamente: “Eu sou o Senhor, teu Deus; não terás outros deuses a meu lado!”[2]

Não é por outro motivo também que na dissertação “Uma Nova Lei” encontramos o parágrafo a seguir, que fala da saudade do espírito pela sua verdadeira pátria:

“Contudo, para poder subir, tem de existir em vós a saudade do puro e luminoso reino de Deus! A saudade disso soergue o espírito! Por conseguinte, pensai permanentemente em Deus e em Sua vontade! Contudo, não formeis disso uma imagem! Teria de ser errada, porque o espírito humano não pode conceber o conceito de Deus. Por isso lhe é dado compreender a vontade de Deus, a qual tem de procurar sinceramente e com humildade. Tendo reconhecido a vontade, então nela reconhecerá Deus! Tão somente esse é o caminho para Ele!”

Pensar permanentemente em Deus e em Sua vontade… Eis aí a chave para se cumprir naturalmente o primeiro e mais sagrado dos dez mandamentos; a chave para o reconhecimento convicto da atuação do Todo-Poderoso e para o despertar do ardente anseio de se aproximar Dele, com alma preenchida de gratidão. A chave, em suma, para a ascensão da alma nos mundos do além.

Pensar permanentemente em Deus e em Sua vontade…

O espírito humano dispõe da prerrogativa de reconhecer a vontade divina nos efeitos automáticos das leis que regem a Criação. Pois ele vivencia diariamente, em si mesmo, esses efeitos. Se sofre alguma dor, física ou anímica, então isso é uma indicação de ter agido contra essa vontade. Do mesmo modo, as bênçãos que recebe são sinais de ter agido em concordância com essa mesma vontade. E ao reconhecer os efeitos justos e incorruptíveis dessa vontade, estará assim reconhecendo a Fonte de onde ela proveio: o onipotente Criador dos mundos. A gratidão que brota em seu íntimo em relação a Ele, por lhe ter concedido a inavaliável graça da vida, formará então o mencionando “pendor ao contrário”, o qual, após o desenlace terreno, lhe puxará para o alto como que por um cordão luminoso, ou, então, pelo menos o segurará, impedindo sua queda.

Claro que a vida na Terra é cheia de imprevistos e dissabores, mas isso não é motivo para fraquejarmos em nosso esforço em melhorar continuamente. Ficar momentaneamente chateado com algum contratempo é normal (desde que nos livremos rapidamente da sensação de aborrecimento), mas explosões de raiva indicam que ainda há sujeiras a remover da alma. Também ruminações sem fim sobre os problemas da vida só trazem novos problemas, sem resolver nada dos anteriores: nosso foco de pensamentos fica mais ou menos turvado, ensejando pensamentos correspondentemente turvos. E a partir daí… já sabemos: os pensamentos rapidamente se fortalecem pela atração da igual espécie e suplantam facilmente qualquer “boa vontade” mental. Em segundos, passamos de senhores a escravos de nossos pensamentos.

A rigor, não é tão importante o fato de ainda cometermos alguns erros. Importante mesmo é o reconhecimento de nossa conduta errada e a firme resolução de não mais errar. É mais incisivo para a ascensão a movimentação ascendente contínua do espírito do que propriamente o nível espiritual em que ele se encontra. Na época de Jesus, as pessoas agraciadas com algum milagre, ou que, através das palavras dele reconheciam suas faltas, recebiam sua clara indicação: “Vá, e não tornes a pecar!” Este é o estado de alma correto de quem reconhece suas falhas e procura com sinceridade saná-las, pois não quer mais ofender seu Criador por ignorância ou por se deixar arrastar por algum pendor pouco limpo. Tal como uma criança boa, que por amor a seus pais procura fazer o que eles lhe ensinam e pedem.

Não é demais ressaltar: se é errado e inútil tentar conseguir gerar bons pensamentos à força, também o é a tentativa de manter puro o foco dos pensamentos apenas com vontade mental. Em ambos os casos trata-se novamente do predomínio do raciocínio numa atuação que não lhe compete. Como proceder então para conservar puro o foco gerador dos pensamentos de uma maneira natural, não forçada?

Há uma maneira bastante simples de conseguir isso. Na dissertação “Responsabilidade”, encontramos o seguinte parágrafo:

“A todo momento podeis iniciar a escalada para as alturas e reparar o passado, seja ele qual for! Não façais nada mais do que pensar no fato de que a pura força de Deus vos perflui continuamente, então vós próprios temereis em dirigir essa pureza para canais imundos de maus pensamentos, porque sem qualquer esforço podeis alcançar da mesma maneira o mais elevado e o mais nobre. Precisais apenas dirigir; a força então atuará por si mesma, na direção por vós desejada.”

Se imaginarmos a força do Criador nos atravessando continuamente – o que de fato acontece –, e tivermos boa vontade, então conduziremos naturalmente essa força adiante, mediante pensamentos límpidos, para a produção de belos e bons efeitos. Estaremos assim mantendo puro o foco de nossos pensamentos, de maneira simples e natural, o que só redundará, por efeito da lei da reciprocidade, em nosso próprio benefício.

Quando o leitor da Mensagem do Graal se depara com o parágrafo acima, usualmente ele faz um breve exercício de imaginação sobre a força do Criador perfluindo-o, e só. Fica nisso. Desse modo, ele não transformou em vida o ensinamento da Mensagem, não o tornou algo próprio e natural. Só quando ele utilizar o ensinamento no dia a dia, singelamente, é que conseguirá manter naturalmente puro o foco gerador de seus pensamentos, desde que a boa vontade seja prevalente em seu ser. E, com isso, encontrará finalmente a paz verdadeira, decorrente de um foco gerador de pensamentos conservado permanentemente puro.

[1] Ver, a respeito, a obra O Filho do Homem na Terra (http://bit.ly/1iFqykj).

[2] Ver, a respeito, Os Dez Mandamentos e o Pai Nosso, de Abdruschin (http://bit.ly/1iu7rGG).