A eclosão

Nota introdutória

Neste ensaio, todos os trechos em destaque foram extraídos da obra Na Luz da Verdade, a Mensagem do Graal de Abdruschin, publicada pela Ordem do Graal na Terra. Sempre que a palavra “dissertação” é mencionada, o autor está se referindo à Mensagem do Graal. Quando a dissertação não é mencionada no texto, o respectivo título aparece entre parênteses, ao final do trecho destacado.

A eclosão

Vivemos no tempo do Juízo Final, e em sua última fase. Nessa época tão séria, tudo o que estava escondido na alma humana vem à tona, para que se mostre como realmente é. Este processo é explicado com riqueza de detalhes na dissertação “Tudo quanto é morto na Criação deve ser despertado para que se julgue!” O primeiro parágrafo já esclarece o real sentido do conceito de ressurreição dos mortos no Juízo:

“Juízo Final! Todas as promessas a isso ligadas anunciam a ressurreição de todos os mortos para o Juízo Final. No sentido de tal expressão mais uma vez os seres humanos incluíram um erro, pois isto não deve significar: ressurreição de todos os mortos, e sim ressurreição de tudo quanto é morto! Isto é: vivificação de tudo quanto se acha sem movimento na Criação, para que se torne vivo para o Juízo de Deus e assim, em sua atividade, ser elevado ou exterminado!”

Abdruschin fala aqui da vivificação de tudo quanto se acha sem movimento na Criação, como um dos efeitos do processo do Juízo em curso. O Juízo Final, ou Julgamento Final, é o período de tempo em que se dá a prestação de contas de como o espírito humano utilizou o tempo a ele concedido para seu desenvolvimento na Terra e nos mundos fino-materiais do Além. É a época da ressurreição. Ressurreição significa “ressurgir”. Assim, tudo o que está escondido na alma humana, aparentemente dormindo, aparentemente morto, ressurgirá agora para a vida devido ao aumentado movimento imposto pelo processo do Juízo.

Movimento, aliás, é uma lei fundamental do Universo. Unicamente aquilo que se conserva em contínuo movimento pode, de fato, conservar-se, isto é, manterse, permanecer existindo e produzindo efeitos. Se uma pessoa quiser conservarse sadia de corpo e alma, tem, pois, de movimentar-se terrenal e espiritualmente. Do contrário, atrairá para si a doença e a morte, como consequência natural de tudo quanto permanece estagnado na Criação. O que vale para o corpo físico vale para o espírito, pois trata-se da mesma lei a exigir movimentação contínua da criatura humana.

A própria Criação material não pode prescindir do movimento. Ela mesma só se mantém e se desenvolve porque permanece em contínua movimentação, num eterno ciclo de formação e decomposição, de frutificação e colheita.

Certa vez, Jesus exortou seus ouvintes e seguidores: “Pedi e dar-se-vos-á, procurai e encontrareis, batei e abrir-se-vos-á!” (Mt7:7; Lc11:9). Não é difícil reconhecer que o ensinamento principal aí é, justamente, o da movimentação. O Filho de Deus estimula os seres humanos a se movimentarem para conseguir o que necessitam ou almejam.

Só com movimento permanente o espírito humano se fortalece e progride. A utilização permanente de alguma coisa, qualquer coisa, é fundamental para o desenvolvimento e a manutenção da funcionalidade. Um pianista que reconheceu os efeitos da lei do movimento sintetizou dessa maneira as consequências da sua não observância: “Se deixo passar um dia sem tocar, eu noto; dois dias, meus amigos notam; uma semana, e todo mundo nota.”

O processo do Juízo Final provoca, pois, uma movimentação mais intensa de tudo, uma aceleração de tudo, tanto em eventos planetários como no íntimo de cada ser humano. É semelhante ao aquecimento da água para cozinhar, a qual começa a movimentar-se cada vez mais rapidamente devido à fonte de calor externo, até chegar à ebulição. No ponto de ebulição, toda e qualquer sujeira que por ventura estava depositada no fundo da panela, será arrancada e levada para superfície, de modo que se tornará plenamente visível e reconhecível. No ponto de fervura, mesmo a sujeira mais escondida vem à tona.

Para compreendermos como essa movimentação acelerada atinge uma pessoa aqui na Terra, nessa etapa final do Juízo, precisamos assimilar dois conceitos básicos: as partes constitutivas da criatura humana e o fenômeno da reencarnação.

O ser humano terreno possui vários invólucros envolvendo o seu “eu”, mas os principais são dois: o corpo físico e um corpo de matéria fina, a que chamamos “alma”. A alma é o invólucro do espírito, assim como o corpo é o invólucro da alma. Apenas o espírito é realmente vivo, ao passo que os invólucros são apenas vivificados pela irradiação do espírito.

O espírito humano necessita incondicionalmente desses dois invólucros básicos para poder se fazer valer plenamente aqui na matéria visível. Sem o corpo físico, isto é, sem o invólucro grosso-material mais externo, ele não poderia atuar no ambiente terreno de mesma espécie.

É como alguém que desejasse ou precisasse pesquisar o fundo do oceano para poder conhecer o que se encontra naquele ambiente. Para saber o que existe no fundo do mar tal pessoa precisa mergulhar até lá. E, para tanto, não pode simplesmente pular na água, mas sim deverá vestir primeiramente um macacão apropriado, que a proteja das baixas temperaturas. E por cima do macacão ainda um escafandro, que é um invólucro impermeável bem mais pesado, que lhe permitirá movimentar-se no ambiente aquático, mais denso do que o ar a que ela está acostumada e de onde veio. Assim, bem aparelhada, poderá descer até o fundo do mar, caminhar por ali, aprender tudo o que necessita e, por fim, subir novamente à superfície, quando então poderá despir os dois invólucros especiais que havia utilizado em sua descida. Até que uma nova necessidade de aprendizado a leve a preparar-se novamente para mais um mergulho.

Da mesma forma que essas roupagens especiais de mergulho, ambos os invólucros do espírito humano – corpo e alma – também não têm vida autônoma fora da Terra e dos mundos que chamamos de Além, mas são, como dito, apenas vivificados pelo espírito, o único realmente vivo no ser humano, aquilo que sentimos nitidamente como sendo o nosso “eu”. Para o espírito humano poder viver e interagir na materialidade mais grosseira, a qual funciona como uma escola para o seu necessário amadurecimento, ele precisa, pois, revestir-se de um invólucro adequado a esse ambiente mais denso, que é seu corpo físico.

O corpo material não é, portanto, o ser humano propriamente, mas apenas a sua vestimenta mais externa, que, no entanto, tem de ser conservada sadia e vigorosa para possibilitar a adequada atuação do espírito. A rigor, a criatura humana é, única e exclusivamente, o próprio espírito humano. É tão somente o espírito que nos dá a consciência da individualidade, o sentimento que percebemos como sendo o nosso “eu”.

O “eu” espiritual se reencarna várias vezes ao longo de sua existência. A reencarnação não é acaso uma espécie de doutrina ou dogma. Também não é um ensinamento místico ou uma crença sem fundamento. A reencarnação é simplesmente um fato. Todos nós já vivemos várias vidas aqui na Terra e também no Além, independentemente de nossa aceitação ou rejeição.

Por outro lado, a ideia de uma ressurreição corpórea de pessoas fisicamente mortas é coisa impossível. O corpo terreno é formado de matéria, e em razão disso terá de permanecer sempre no âmbito material do qual se originou, jamais podendo alcançar outros planos da Criação situados acima dele, os quais são de espécie e constituição completamente diferentes. Uma decorrência absolutamente natural e lógica de leis eternas, imutáveis e perfeitas.

Ressurreição corpórea, a bem dizer, verifica-se em cada nascimento terreno. Uma ressurreição “na carne”, em virtude da nova vida que se inicia na Terra, e não uma ressurreição “da carne”, pois a alma, o invólucro mais fino do espírito, é sempre o mesmo, podendo apresentar-se mais limpo ou mais sujo conforme viveu anteriormente o respectivo ser humano, o que fatalmente se evidenciará na nova vida terrena. O que muda em cada encarnação é unicamente a vestimenta mais externa ou invólucro, denominada corpo humano, num processo que se repete várias vezes mas que não é infinito, visto que para tudo há um tempo determinado, e assim também para o desenvolvimento previsto para o espírito. No final desse tempo de desenvolvimento há então um exame: o Juízo Final.

Durante o período concedido para o seu desenvolvimento, o espírito humano repete o ciclo de morte e renascimento, de partir para o mundo do Além e de lá retornar para uma nova encarnação, tal como descrito no primeiro livro do profeta Samuel: “O Senhor é quem dá a morte e a vida, faz descer à morada dos mortos e de lá voltar” (1Sm2:6).

Este ciclo de morte e renascimento na matéria não interrompe a existência da criatura humana. Ela permanece viva e aprendendo. O invólucro mais fino do espírito, a alma, é sempre o mesmo durante as várias reencarnações. E essa alma mostra, com infalível segurança, os erros e acertos do espírito humano em suas muitas vidas no Aquém e no Além. Nela se evidenciam todos os erros e pendores adquiridos, como também eventuais virtudes desenvolvidas.

Os pendores e virtudes angariados pelo ser humano são decorrência do rumo que ele dá à sua vontade, ao seu querer mais íntimo, o que se manifesta pelas correspondentes intuições, pensamentos e ações. Essas atividades geram conformações de uma matéria mais fina, não visível aos olhos físicos, as quais permanecem ligadas ao gerador enquanto perdurar a direção que ele deu à sua vontade. Como estão ligadas, elas acabam trazendo de volta ao gerador tudo quanto ele mesmo emitiu, numa intensidade muito maior. A isso se dá o nome de destino ou carma.

Tais retornos dos produtos da vontade humana podem levar bastante tempo para efetivarem-se na alma, talvez até várias vidas terrenas. O que o processo do Juízo Final acarreta é justamente uma aceleração disso, pela aumentada irradiação da Luz, que segue através desses fios formados pela atividade do querer humano. Assim, a respectiva alma será infalivelmente atingida na medida exata do que nela está impresso, decorrente do querer espiritual.

O reviver dos pendores e virtudes da alma se dá na exata proporção em que essas características estiverem arraigadas na alma. Por isso, uma pessoa que adquiriu várias virtudes de maneira consistente terá muito mais facilidade em libertar-se de possíveis erros também aderidos a si, porque nela o bem é muito mais forte, predomina numa intensidade muito maior. Na situação inversa, do mesmo modo, o indivíduo terá muito maior dificuldade para livrar-se de seus pendores, por culpa própria, visto ter dado guarida em si, também de maneira especialmente forte, a inúmeros vícios e erros.

Em ambos os casos, tanto o mal como o bem impressos na alma serão fortificados e postos em maior movimentação pela aumentada irradiação do Juízo. A chave para subsistir no Juízo reside, portanto, em direcionar a vontade interior unicamente para o bem, para que este se torne predominante no indivíduo, a despeito da quantidade e intensidade de erros e pendores também aderidos na alma. O esforço necessário para isso dependerá, portanto, do grau de arraigamento das virtudes e pendores aderidos à alma.

Vejamos um exemplo. Suponhamos que duas pessoas estão hoje cientes de que precisam movimentar-se espiritualmente, de que necessitam esforçar-se ao máximo no sentido do bem, porque compreenderam acertadamente como se dá o processo do Juízo Final. Suponhamos ainda que, não obstante essa compreensão, ambas tragam em si uma certa propensão à inveja. A primeira, porém, apresenta apenas uma leve inclinação para isso, ao passo que sua alma registra várias virtudes firmemente adquiridas. A segunda encontra-se em situação oposta: a inveja está firmemente arraigada nela, está fortemente impregnada em sua alma, a qual praticamente não mostra a consolidação de virtudes. Numa situação passível de desencadear sentimentos invejosos, a segunda terá, por conseguinte, de lutar muito mais intensamente a fim de não se deixar dominar por eles e, consequentemente, gerar configurações trevosas de pensamentos e intuições correlacionadas à inveja.

Se eventualmente o primeiro indivíduo vir seu vizinho numa situação prazerosa qualquer, digamos… dirigindo um belo carro novo, poderá então sentir, para sua surpresa e decepção, um certo desconforto. E então se perguntará: “Por que estou incomodado com isso?… Não quero e não devo me entristecer com o sucesso do meu vizinho!” Ativará então sua vontade intuitiva no sentido do bem, esforçando-se nisso, dirigindo de modo natural bons pensamentos ao seu vizinho, de modo que em breve ficará livre daquele mal estar. Se permanecer nessa sua boa vontade, ficará feliz ao constatar que, ao contrário do primeiro mau sentimento eclodido, que lhe causou uma desagradável surpresa, estará agora alegrando-se com a alegria do seu próximo, e isso lhe trará paz. A eclosão daquele sentimento inicial negativo, porém, mesmo que fraco, é um indicativo muito sério, pois é a prova de que deixou medrar em sua alma um pendor trevoso. Esse reconhecimento pode e deve fortalecer sua vontade interior unicamente para o bem, até que, no futuro, quando se deparar com uma situação semelhante, possa então constatar, com alegria, que não sente mais nenhuma inveja por algo bom e belo que alcançou um seu semelhante. E isso será também um sinal de que este pendor desprendeu-se totalmente de sua alma.

Para o segundo indivíduo, exposto à mesma situação hipotética do vizinho passeando num carro novo, a situação será mais difícil, pois não sentirá apenas um leve desconforto e sim uma angústia mortal. Se ele nada soubesse das leis da Criação, muito provavelmente se deixaria envolver por tal intenso sentimento de inveja sem se aperceber disso, e sua própria vontade obscura cuidaria de fortalecer ainda mais esse pendor anímico. Na sequência, ele geraria então conformações pavorosas com suas intuições e pensamentos invejosos, e afundaria espiritualmente cada vez mais, por efeito da lei da gravidade espiritual. Mas como supusemos que também esse segundo individuo deseja viver corretamente, o desencadeamento de um forte sentimento de inveja dentro de si irá requerer dele uma contrapressão muito maior em direção contrária, portanto um esforço muito maior para se ver livre disso. Tal contingência é absolutamente justa, pois foi ele mesmo quem permitiu que pendores e vícios aderissem fortemente à sua alma, em especial a inveja, em várias vidas no Aquém e no Além. Agora, é ele próprio que precisa esforçar-se em igual medida para ver-se livre desses males. Contudo, se perseverar em sua boa vontade, se não esmorecer, também será auxiliado pelos efeitos das leis da Criação e poderá libertar-se totalmente da inveja, embora com muito mais dificuldade do que a primeira pessoa do nosso exemplo.

Ao procurar dar um novo direcionamento à sua vontade, a que pode ser auxiliada mediante uma oração sincera, essa segunda pessoa pode conectar-se com as centrais de pensamentos altruísticos e de amor ao próximo, e de lá receber um fortalecimento gradativo. Aos poucos, essas ligações com centrais puras se fortalecerão e as ligações com as centrais de inveja, ciúmes, etc se enfraquecerão, até se desligarem por completo dela. Isso, porém, não se dará da noite para o dia, mas requer perseverança daquele que luta por si mesmo no Juízo.

O efeito da irradiação aumentada do Juízo é, portanto, o de fazer reviver o que estava “dormindo” na alma. Nesse caso da inveja, o pendor já havia sido fortalecido e tornado vivo em ambos os indivíduos considerados, de modo que bastou um leve estímulo – o carro novo do vizinho – para que se evidenciasse perceptivelmente. Mas poderia ser também algo mais simples, como um relógio bonito ou um reluzente sapato ostentado por um conhecido ou mesmo um estranho, ou ainda uma viagem de férias ou um novo emprego de um parente, não importa. Algo bom que alcançou um seu semelhante desencadeia de pronto o pendor já fortalecido na alma pelas irradiações aumentadas do Juízo Universal.

No caso das virtudes ocorre a mesma coisa. O desejo sincero em auxiliar o próximo, por exemplo, será fortalecido e se evidenciará mais claramente na pessoa que cultivou essa virtude dentro de si. E não somente se tornará mais forte, como será também transpulsado da mais límpida intuição, de modo que essa ajuda só se dará, realmente, em benefício genuíno dos semelhantes. Sim, porque como tudo o que foi submetido à vontade humana nos últimos milênios, também o nobre sentimento do amor ao próximo foi desvirtuado e degradado, infelizmente.

No que se transformou nos dias de hoje o conceito do verdadeiro amor ao próximo?… Tornou-se um amor complacente, falso, pegajoso, voltado apenas para anestesiar aqui e ali a dor de quem errou, mas sem manifestar nenhum interesse em desvendar a causa real do sofrimento, o que infalivelmente força o retorno dessa mesma dor, sempre e sempre de novo. Tornou-se um amor falso, unilateral. Uma espécie de amor pronta a distribuir esmolas aos desvalidos, mas não sem antes lhes subtrair o tesouro da dignidade; um amor que se apressa em enxugar as lágrimas do sofredor, mas apenas para que este possa enxergar mais claramente o sorriso de seu consolador. O atual “amor ao próximo” até pode proporcionar um alívio momentâneo, porém a um custo muito alto, a um preço demasiadamente caro: o da infelicidade permanente.

Amor ao próximo não é isso, não pode ser isso. Amor, amor verdadeiro ao próximo é dar a ele, antes de mais nada, aquilo que lhe é de fato útil, pouco importando se isso lhe causa ou não alguma alegria efêmera. É mostrar de forma clara, até mesmo contundente se for preciso, os erros cometidos, os quais sempre retornam ao gerador na forma de sofrimentos intermitentes. É amparar na travessia do árduo caminho do reconhecimento das faltas e dar apoio irrestrito àquele que se esforça sinceramente em suplantar suas fraquezas. Sim, porque unicamente o reconhecimento pessoal da atuação errada, implacável e abrangente, é capaz de levar alguém a mudar a sua sintonização interior. E tão somente essa voluntária mudança de sintonia íntima pode interromper de vez o ciclo aparentemente sem fim do sofrimento contínuo. O legítimo amor ao próximo nunca se mostrará desvinculado da justa severidade.

Procuremos amar nossos semelhantes segundo dispõe as leis desta Criação, que requerem um amor legítimo, severo, que vise ao bem do próximo em sentido amplo, profundo, espiritual, e não voltado apenas para a concessão de meros paliativos terrenos.

Há ainda outras possibilidades de reação à eclosão de pendores que estavam dormitando na alma. Vejamos mais dois grupos: o dos malévolos e o dos indiferentes ou “mornos”.

Malévolos são indivíduos afastados da Luz já há muito e que não têm mais anseio por ela em seus corações. Pessoas desse tipo costumam nutrir vários defeitos, e via de regra são egoístas, não se importando em causar danos a seus semelhantes com vistas a atingir interesses pessoais, meramente terrenos. Seus pensamentos e intuições estão sempre voltados unicamente para si mesmas, para a satisfação de seus desejos, suas cobiças e instintos. Exteriormente, suas palavras e ações podem até parecer corretas, mas apenas com o intuito de causar “boa figura” e angariar boa reputação. Tudo nelas é friamente calculado com antecedência, seus planos são meticulosamente urdidos antes de serem postos em ação. Elas ouvem única e exclusivamente as diretrizes de seu raciocínio, e nada sabem nem querem saber da intuição espiritual.

Todos os defeitos, vícios e pendores arraigados nas almas dessas criaturas também crescem agora desmesuradamente dentro delas, pelo incremento das irradiações robustecidas do Juízo. Desse processo, porém, elas não têm ciência e nem se dão conta. Tais indivíduos maus, intrinsicamente perversos, que não mais almejam tornar-se seres humanos melhores, não podem perceber o adensamento das trevas em seu íntimo, já que eles mesmo estão mergulhados nelas há várias encarnações.

Continuarão a alimentar sentimentos ruins, cada vez mais, e a praticar atos em prejuízo de seus semelhantes. Suas almas densas e escurecidas tornar-se-ão cada vez mais pesadas, e com isso eles afundarão espiritualmente mais e mais em decorrência da lei da gravidade espiritual, sem se aperceberem disso. Desse modo, eles mesmos imprimem em si o cunho de joio, que tem de ser lançado fora da Criação, para que o trigo remanescente possa ficar finalmente livre de sua influência nefasta e disseminar as bênçãos de que é capaz.

O grupo dos mornos ou indolentes abarca pessoas não necessariamente malévolas, mas que se opõem inconscientemente à lei do movimento. Também elas não têm mais anseio em melhorar como seres humanos. O mínimo empenho nesse sentido lhes parece um esforço sobre-humano. A irradiação aumentada do Juízo, porém, não admite meio termo. Quem não se adaptar, terá de quebrar, e querer manter-se fora do movimento significa não se adaptar.

“Nada permanece imóvel agora, pois a força viva que agora flui fortalecida através de toda a Criação impele, pressiona e obriga tudo à movimentação. Dessa forma é fortalecido também o que até então repousava ou dormia. É despertado, fortificado e tem assim de agir, sendo em atividade redespertada praticamente arrastado para a Luz, mesmo que quisesse se esconder. Pode-se dizer também que vem à Luz e tem de se mostrar, não podendo mais continuar dormindo, onde quer que se encontre. Empregando palavras populares: Vem à tona.”

(Tudo quanto é morto na Criação… – segundo parágrafo.)

A dissertação “Tudo quanto é morto na Criação…” é seguida da dissertação “O Livro da Vida”. Há uma estreita correlação entre as duas, como se pode constatar neste trecho da segunda:

“Os golpes da irradiação, ou as irradiações, atravessam portanto a Criação toda, mas com uma força até então jamais havida.

Nada consegue se esconder do seu efeito! E assim, o raio da força divina atinge também cada alma em determinada hora na lei da atuação da Criação.

Então, tudo quanto a alma humana ainda traz consigo, por ocasião do impacto do raio de Deus, que nem se torna visível a ela, terá de reviver e também chegar aos efeitos e atividade, a fim de que nisso possa fechar seu último círculo de remate, que elevará ou afundará essa alma.”

(O Livro da Vida)

A dissertação O Livro da Vida explicita como se dá o processo da vivificação de tudo quanto se acha impregnado na alma, a ressurreição de tudo quanto se encontra aparentemente morto nela. A isso se junta ainda os retornos cármicos, trazendo de volta a cada um tudo quanto foi semeado nesta vida e outras passadas e que ainda não foi extinto pela lei da reciprocidade.

Isso tudo faz com que nos sintamos dentro de um turbilhão contínuo, mergulhados nas ondas de efeitos recíprocos e do fortalecimento de todos os pendores aderidos a nossas almas. Nas situações em que nos vemos envolvidos de maneira aparentemente injusta, estamos, na realidade, colhendo semeaduras de tempos idos, porque hoje tudo é efeito retroativo. Por isso, a vigilância tem de ser permanente. Vigilância para mantermos nossa vontade sempre no sentido do bem, pois inconformismos e revoltas não só acarretam novo carma a ser saldado, pela geração de formas negativas de pensamentos e intuições, como ainda impedem o resgate do carma antigo. O carma antigo continuará vivo nessa situação, lançando sua reciprocidade sempre e sempre de novo sobre nós, reiteradamente, e cada vez mais rápido em razão do processo do aceleramento do Juízo.

Não significa com isso que devamos aceitar placidamente, sem reação, alguma real injustiça. Contudo, ataques maldosos de pessoas pouco limpas podem ser desfeitos até antes de se efetivarem na matéria se a nossa vigilância, espiritual e terrena, for eficaz. Mas se, mesmo assim, sofrermos um ataque, devemos fazer imediato uso da intuição (não do sentimento) a fim de saber se aquilo é um mero atrito, comum nos dias de hoje, decorrente da vida em comum de pessoas de espécies e maturidades diferentes, ou se é efetivamente um retorno cármico. Em qualquer situação, porém, a vontade tem de permanecer pura, voltada sempre exclusivamente para o bem, para que não geremos maus pensamentos e intuições turvas. Pois não existem maus pensamentos justificados. Somos criaturas, e dentro da obra da Criação estamos envoltos pelas leis que a sustentam. Não poderemos jamais nos desviar ou desvencilhar da lei da reciprocidade.

Em lugar algum da Criação o ser humano pode ocultar-se da Justiça divina. Não existe nenhum esconderijo para ele. Como diz acertadamente o salmista, mesmo se tivéssemos as “asas da aurora” a mão do Senhor nos alcançaria: “Senhor, Tu me examinas e me conheces. Para onde irei, longe do Teu Espírito? Para onde fugirei da Tua presença? Se subo ao céu, lá estás, se desço ao abismo, aí Te encontro. Se utilizo as asas da aurora para ir morar nos confins do mar, também lá Tua mão me guia” (Sl139:1,7-10).

“Pois não podeis fugir à lei da reciprocidade que está inserida na Criação! Mesmo que tivésseis as asas da aurora, alcançar-vos-ia a mão do Senhor, de cuja força abusastes, onde quer que vos escondêsseis, e isso através desse efeito de reciprocidade que atua automaticamente.”

(Responsabilidade)

 

“Tudo se torna vida e atividade nesta Criação inteira, mediante a nova penetração da Luz! A Luz atrai com isso poderosamente… com ou sem a vontade do que está latente na Criação ou talvez até escondido, e que chega finalmente em contato com essa Luz, não podendo escapar dela nem que tenha as asas da aurora, e lugar nenhum da Criação inteira pode dar-lhe proteção. Nada permanece sem ser iluminado.”

(Tudo quanto é morto na Criação… – terceiro parágrafo.)

A expressão “asas da aurora” é primorosa para indicar a infalível atuação da Justiça divina. Sempre é aurora em algum lugar da Terra, de modo que se uma pessoa tivesse as asas da aurora poderia estar num local diferente a cada momento. Porém, mesmo que isso fosse possível, a mão justa do Senhor a alcançaria, pois Sua Justiça perfeita não é delimitada pelo espaço e pelo tempo.

O esforço em manter a vontade interior sempre pura não é uma luta inglória, não é um empenho sem ajuda, pois a própria irradiação da Luz que provoca o despertar dos pendores da alma também fortifica a vontade boa, ajusta a essa Luz. O mal se destroçará por si mesmo com essa irradiação aumentada, enquanto que o bem será fortalecido.

“Na movimentação decorrente dessa atração, porém, terá de se destroçar e queimar nessa Luz aquilo que não suportar a irradiação, aquilo que, portanto, em si próprio já não aspirar mais por essa Luz. O que estiver sintonizado à Luz, porém, florescerá e se fortalecerá na pureza de seu querer!

(Tudo quanto é morto na Criação… – quarto parágrafo.)

Muitas pessoas que conhecem o processo do Juízo Final pensam nele apenas em termos de grandes catástrofes da natureza, epidemias, guerras e misérias, sem considerar que este sagrado acontecimento está se evidenciando nelas mesmas há décadas, e numa intensidade cada vez maior. O Juízo final é sobretudo um processo íntimo, vivo, e requer uma vigilância e movimentação espiritual permanente para ser reconhecido em sua real dimensão para o espírito humano.

“Assim sucederá também com todas as características das almas desses seres humanos terrenos. O que até então parecia repousar morto, o que dormia, sem o conhecimento muitas vezes da própria pessoa, será sob essa força despertado e fortalecido, transformar-se-á em pensamentos e em ações, de modo a, segundo sua maneira de atuar, julgar-se em face da Luz! Ponderai, tudo o que estiver latente em vós será vivificado! Nisso se encontra a ressurreição de tudo quanto é morto! Juízo vivo! Juízo Final!”

(Tudo quanto é morto na Criação… – quinto parágrafo.)

A causa do alheamento pessoal sobre o processo do Juízo em relação a si próprio reside, mais uma vez, na supremacia do raciocínio em relação à intuição. Tudo o que está latente na alma humana está sendo despertado e fortalecido, transformado em pensamentos e ações, para que se mostre como realmente é. Mas a própria pessoa geralmente não percebe nem reconhece isso, porque o raciocínio logo encontra causas exteriores, meramente terrenas, para essa exacerbação das características latentes da alma.

Como para a imensa maioria das pessoas a maior parte dessas características é de pendores, defeitos e vícios, elas têm a ilusão de estarem sendo vítimas de uma injustiça qualquer quando alguma contingência externa desencadeia nelas maus pensamentos e más intuições, oriundas desses pendores aderidos à alma, os quais estão sendo despertados e fortalecidos. Trata-se, sim, de uma ilusão, porque se elas não tivessem esses defeitos impregnados, nenhuma contingência externa desagradável, seja um mero atrito de convivência ou um verdadeiro retorno cármico negativo, teria poder para fazer brotar nelas intuições más de revolta ou maus pensamentos em relação a algo ou alguém. Pois não existe nenhuma situação na vida que justifique um único mau pensamento. Não existe nenhuma circunstâncias em que as leis da Criação liberem a criatura humana para dar guarida a um pensamento negativo. Não há nenhum exceção. Um mau pensamento é sempre um mau pensamento, independentemente das razões que lhe deram causa.

A pessoa que permite o surgimento de maus pensamentos, ou ainda, que os nutre, demonstra com isso colocar a própria má vontade, conduzida por ponderações de seu raciocínio, acima da Vontade de seu Criador, a qual tudo conduz para melhor, fonte que é de Pureza, Amor e Justiça.

Somente a pessoa que deixa falar a intuição dentro de si, e que, sobretudo, a ouve e segue, somente tal pessoa encontra-se em condições de reconhecer em tempo o que está sendo vivificado dentro dela, sejam coisas boas ou más. E, assim, rechaçar imediatamente para longe de si todo o errado, ao mesmo tempo em que alimenta com sua boa vontade o que reconhece como bom. Ela mesma tem de movimentar-se espiritualmente com bastante energia para solucionar tudo isso nela própria.

“Com isso tendes de solucionar tudo em vós mesmos, tendes de purificarvos, ou desaparecereis junto com o mal, caso ele se torne predominante em vós. Então ele vos segurará, caindo sobre vossas cabeças, escumando fragorosamente, para vos arrastar consigo ao abismo da decomposição, pois ele não poderá subsistir sob o esplendor da força divina! — —“

(Tudo quanto é morto na Criação… – sexto parágrafo.)

Essa situação do mal que arrasta o gerador para a desintegração de uma forma assim tão horrível ocorre sem o reconhecimento da pessoa atingida, porque, como dito, nela o raciocínio encontra para toda a desgraça própria falsas causas exteriores. O raciocínio jamais deixará que a ela chegue o reconhecimento de que tudo o que a atinge foi, de uma maneira ou de outra, gerado por ela mesma. Por isso, a vigilância espiritual nos dias que correm é mais importante do que nunca. “Vela e Ora!” é um mandamento incontornável para quem deseja subsistir ao Juízo.

A descrição claríssima do que ocorre a um ser humano que permite ao mal tornar-se predominante dentro de si não deve causar nenhum pavor, porque essa advertência é oriunda do verdadeiro Amor, que tudo conduz para melhor mediante justa severidade. Não é motivo para medo, e sim para agradecimento, por podemos ficar cientes da magnitude da responsabilidade que temos em relação a nós mesmos nesta época tão grave.

Contudo, o espírito humano que reconheceu a Palavra da Mensagem e que realmente se esforça com todo o seu ser em torná-la viva dentro de si, de tal modo viva como se fosse sua carne e sangue, esse espírito prosseguirá calmamente seu caminho ascendente de evolução espiritual, independentemente do que ainda surgir em sua alma, decorrente da intensificação da irradiação do Juízo.

“Dei-vos, pois, a Palavra, que mostra o caminho, que no despertar desta Criação vos leva seguramente às alturas luminosas, que não vos deixará cair, aconteça o que acontecer e o que surgir dentro de vós! Se tiverdes o olhar voltado para a Luz, com fiel convicção, se tiverdes compreendido direito a minha Palavra, se a tiverdes acolhido em vossas almas, então escalareis tranquilamente rumo às alturas, saindo do caos purificados e clarificados, livres de tudo quanto outrora vos podia estorvar a entrada no Paraíso.”

(Tudo quanto é morto na Criação… – sétimo parágrafo.)

Vigilância permanente, movimentação espiritual contínua e visão clara do gigantesco processo que provoca a eclosão de tudo quanto jazia dormitando na alma são as condições imprescindíveis para subsistir ao Juízo. Sobretudo em relação à vaidade e presunção, porque esses são defeitos que quase todas as pessoas, de uma maneira ou de outra, semearam no solo de suas almas ao longo de uma ou mais vidas terrenas.

“Por isso velai e orai, para que não deixeis vossa clara visão turvar-se pela vaidade e pela presunção, que são as piores armadilhas para estes seres humanos terrenos! Acautelai-vos! Conforme tiverdes preparado o terreno dentro de vós, assim acontecerá para vós na purificação da Criação! —“

(Tudo quanto é morto na Criação… – oitavo e último parágrafo.)